20/05/2010 1 Comentário

Diego Roriz - diegororiz - Rails, Tecnologia e Desenvolvimento

Empreendedorismo é mais do que abrir uma empresa

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Matéria extraída do Portal Pequenas Empresas e Grandes Negócios. Para acessar a matéria no local de origem, clique aqui.

Diretor global de programas e parcerias da Babson College, escola de empreendedorismo americana, comenta o curso preparado em parceria com o Santander e as tendências de mercado

Enio Pinto é, hoje, o diretor global de programas e parcerias da Babson College, considerada há 17 anos a melhor escola de empreendedorismo dos Estados Unidos. Mas ele não imaginava chegar onde está quando ainda estudava engenharia em São Carlos, no interior paulista . Depois de se formar, “sem nunca ter tido aula de empreendedorismo”, Enio Pinto foi trabalhar na multinacional Esso por seis anos. À procura de um curso de mestrado na Babson, ele viu uma vaga para coordenar projetos na América Latina, e agarrou a oportunidade na hora.

Ele voltou ao Brasil nesta semana para acompanhar a abertura das inscrições da 6ª edição dos Prêmios Santander Universidades – neste ano, a novidade é que os inscritos terão acesso gratuito a um curso online de empreendedorismo com conteúdo e metodologia desenvolvidos pela Babson College. Enio conversou com a Pequenas Empresas & Grandes Negócios sobre o conteúdo que a escola pretende passar no curso e as tendências atuais na área de empreendedorismo.

Que visão de empreendedorismo a Babson vai passar nesse curso?
Empreendedorismo não é só a mentalidade de abrir uma empresa; é mais do que isso. Esse curso não é só para quem faz administração de empresas, nem para engenharia, é para todas as disciplinas. Quando tivermos várias disciplinas envolvidas com empreendedorismo, o Brasil vai estar mais aberto a ser um país empreendedor. Não que ele já não seja. Nosso nível de empreendedorismo é maior do que o dos EUA, por exemplo. Mas nós temos muito empreendedorismo de necessidade, por exemplo aquele cara que vende bala no farol. Queremos migrar esse empreendedorismo de necessidade para o empreendedorismo de oportunidade. Isso porque o empreendedorismo de necessidade tem resultados piores, porque o empreendedor não tinha outra opção. Esses negócios têm uma taxa de insucesso muito alta, quebram muito rápido e não geram tanto valor para a sociedade. Quando se vê um nicho de mercado antes de entrar de cabeça no negócio e se empreende por opção, os resultados são mais positivos, e ele agrega mais à sociedade. E só conseguimos fazer isso quando temos educação por trás, e preparo dos empreendedores, dos alunos.

Como vai funcionar o curso?
O curso será online, e terá quatro módulos de uma hora cada, divididos em duas etapas. A primeira é a parte de educação e certificação desses alunos em empreendedorismo, e a segunda é a parte de eles irem à rua e entenderem onde está a oportunidade com o cliente. Vai ser um curso de empreendedorismo focado em conceitos básicos de marketing, de se aproximar do cliente, tentar entender e promover oportunidades. O principal fator de não abertura de negócios para estudantes não é dinheiro, é medo. Então queremos explicar um pouco por que eles têm esse medo, por que não deveriam tê-lo. E outro ponto interessante que passaremos é o conceito de sucesso.

O que se entende por um empreendimento de sucesso?
Temos um conceito de sucesso na sociedade que é bem básico, mas sucesso é muito relativo. Por exemplo, se você entrevistar o Júnior do Grupo Cultural AfroReggae verá que a medida de sucesso para ele não é o dinheiro, e sim quantos meninos ele tirou do tráfico. E o empreendedor é isso. O sucesso para o empreendedor não é só o dinheiro, é concluir a jornada a que ele se propõe durante a vida. Existem vários graus de empreendedorismo, o corporativo, individual… Você pode ser um empreendedor dentro da sua vida, colocando metas para daqui a dois anos, isso é uma atitude empreendedora. Vamos tentar passar mais isso do que ‘como abrir o seu negócio’. Empreendedorismo é tudo que gera riqueza para uma sociedade, mas você decide o que é riqueza. Pode ser emprego, qualidade de vida, aumento do PIB, ou tirar os meninos das ruas.

Essa proposta acredita que o empreendedorismo pode ser ensinado, despertado nas pessoas?
O ponto é mais despertar a coragem de tentar, livrar o aluno do medo do fracasso, porque é só tentando e errando que você vai aprender. Esse conceito de tentar, errar e quebrar é muito aceito em algumas sociedades, em especial a americana, mas no Brasil isso ainda sofre um estigma. Precisamos aprender a lidar melhor com o “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

Por que o sr. acha que os negócios voltados para outras empresas são tendência?
A experiência que temos com competições de planos de negócios é que elas se tornaram um exercício acadêmico, e a quantidade de alunos que abrem uma empresa depois de ter participado de uma competição dessas é muito pequena. Um problema comum dos planos de negócios é que o aluno se sente tão apaixonado pelo que criou, depois de ter ficado um ano trabalhando naquilo, que ele não quer mudar seu produto com base na demanda do consumidor. A oportunidade tem que vir mais do cliente do que da criação que sai de dentro do escritório, sem contato nenhum com o cliente. A maioria dos alunos não tem experiência e tende a criar produtos para as pessoas que eles conhecem, que são outros alunos. Queremos empurrar o aluno para o mercado pra ele ver as oportunidades.

Mas o mercado de Business to Consumers é muito complicado. Quando você anuncia um produto para um consumidor, você vende não apenas aquele produto, mas a felicidade que ele pode proporcionar. E o produto criado pelo estudante será comparado à compra de um sapato, a uma viagem para Fernando de Noronha, e entrar nessa competição é complicado, porque quem ganha é quem gasta mais dinheiro em marketing.

Por isso, queremos fazer com que o aluno saia do Business to Consumers e migre para o Business to Business, porque é um modo de aproximar-se das empresas, entender qual é o problema delas e como ele pode resolver. Se existe uma oportunidade, ele vai ver se ela pode ser replicada para todos os negócios semelhantes àquele, e a partir daí criar um negócio.

Além dos empreendimentos business to business, o sr. aponta a tendência da criação de projetos voltados para energias renováveis e sustentabilidade. Isso também será tema do curso?
Não focaremos em nenhuma indústria específica, porque a oportunidade em empreendedorismo é multi-indústria, é multidisciplinar. O ponto a que me refiro nessa parte de energia é que o Brasil está tendo um potencial muito grande na área, com a produção de etanol e de petróleo, e isso vai ser uma forma de gerar muitos empregos e muitos negócios no setor. Queremos que os alunos vejam a enorme quantidade de projetos e oportunidades que vão aparecer com isso.

De que tipos de iniciativas o sr. está falando?
Por exemplo, a rede de hotéis Hilton. O fundador [Conrad Hilton, em 1919] foi para o Texas para investir em petróleo. Havia muita gente lá para investir, e os hotéis estavam tão lotados que as pessoas passavam poucas horas dormindo neles. E ele não acreditava naquela quantidade de pessoas. Por isso, acabou não investindo em petróleo, mas em hotelaria, e criou uma gigantesca rede de hotéis através de prestar serviços para outras indústrias. Não precisa ser só na área de petróleo, alguém vai precisar abrir um restaurante para os novos 5 mil trabalhadores que vão trabalhar naquela planta, e aí vai toda uma quantidade de empreendedores.

Essa história do Hilton é importante para ver que quando você se aproxima do cliente, quando você conversa com ele, você vê outras oportunidades. Você muda, e tem que mudar. O business que você vai terminar nunca é o business que você pensou quando começou. E o empreendedor tem que estar pronto para essa mudança. O empreendedor que não quer mudar o produto porque se apaixonou pelo projeto está morto.

Qual é o potencial do ensino de empreendedorismo?
Estamos vivendo um momento único na história. Antes, quem tinha dinheiro era quem detinha o conhecimento, e em geral eram pessoas mais velhas. Hoje em dia isso mudou. Por causa da tecnologia, da difusão de informações na internet, quem está fazendo faculdade já pode ter bastante conhecimento e muito valor a agregar a uma empresa. Ensinando atitudes empreendedoras aos jovens, teremos uma ferramenta para mudar a mentalidade em um país.


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